
- Dia do Solista
Não é raro ver um único artista que pertença ao mesmo tempo a duas orquestras, a um conjunto de câmara, e que ainda arrume tempo para dar aulas, fazer gravações como free-lancer e estudar. O motivo? Aquele que preocupa a todos, independente da profissão: o dinheiro. No entanto, nesta classe, a situação é ainda pior.
Em uma orquestra profissional e conceituada, como a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), um instrumentista ganha em média R$ 1.200,00 e como o custo de vida é infinitamente superior ao salário, eles não têm outra saída a não ser partir para outros empregos. É o caso do carioca Flávio Melo, trompetista da Orquestra Sinfônica Nacional - UFF (OSN-UFF), OSB, do Quinteto de Metais Rio Brass, e que ainda participa de gravações com artistas da MPB, tais como, Xuxa, Titãs, Banda Eva, Fagner, e outros.
Para o trompetista, ter um emprego só, é inviável já que a manutenção e a compra de instrumentos é muito cara, um trompete novo lá fora custa cerca de US$ 2,500.00, contabiliza. Nessas condições, fica muito atraente fazer um free-lancer com a MPB, que é muito mais rentável. Em um dia de gravação com o Fagner ganhei o mesmo que em um mês de OSB, lembra ele. A maior dificuldade de Flávio é dividir o seu tempo entre as duas orquestras que ensaiam pela parte da manhã. Existe um rodízio de músicos tanto na OSB como na OSN-UFF, e quando eu tenho folga em uma, toco na outra, explica.
O grande problema é quando ele tem ensaio nas duas e não tem outra alternativa a não ser escolher a menos importante e faltar. É muito estressante!, conclui. Seu companheiro de OSB, o cellista Ricardo Santoro, reclama da falta de tempo para se dedicar ao instrumento.
O ideal é estudar pelo menos 4 horas por dia, mas nem sempre dá, lamenta. Isso fica claro quando ele enumera suas atividades. De emprego fixo, como contratado, sou músico da OSB, da Orquestra Sinfônica da Escola de Música da UFRJ e professor de violoncelo da Pró-Arte, respira, Fora isso tenho o Duo Santoro de Violoncelos, o Trio Aquarius, o Quarteto Continental, e estou começando um Duo Piano-Violoncelo com a pianista Paula da Matta. Ricardo ainda faz cachê, quando o músico participa como convidado, na OSN-UFF , e na Orquestra Petrobrás Pró-Música. Participa também de gravações na MPB, com Zélia Duncan, Guilherme Arantes, Almir Satter, Roberto Carlos, entre outros.
Eu não tenho preconceito. Sendo uma coisa boa, de qualidade, eu topo fazer, democratiza. Ricardo não pára por aí. Esse carioca de 29 anos, que admira Villa-Lobos e Bach, tem planos de gravar dois CDs e montar uma Orquestra de Câmara só com músicos jovens. Segundo ele, falta uma boa orquestra de câmara no Brasil. Mas, nem só de música vivem esses artistas. O psiquiatra, maestro, violinista e violista carioca, Jaques Nirenberg, fundador do Quarteto Brasileiro da UFRJ, diz que a música é inerente à sua formação, e que a medicina entrou em sua vida por escolha e amor à ciência.
Para ele, as duas profissões se complementam e tempo é o que menos importa quando se trabalha com amor, mas é bem verdade que ele sacrificou enormemente a vida social, de lazer e abusou um pouco da paciência de sua mulher e filhos. Atualmente, exerce as duas profissões. No entanto, por ter fechado o consultório, a música ficou em primeiro plano. Como médico, dedica-se a escrever sobre medicina e música. Jacques tem diversos trabalhos sobre o tema publicados na Revista da Academia Nacional de Música e nos Boletins da Divisão de Saúde do Ministério da Saúde, e afirma que foi um dos primeiros a abordar o tema Inteligência Emocional, tão em voga no momento.
O também carioca, Marcos Nogueira, é outro personagem versátil. É compositor, musicólogo/ pesquisador, clarinetista, professor e dublê de administrador, como se auto define. Entre um telefonema e outro, em sua sala, na Escola de Música Villa-Lobos, onde é diretor geral, respondeu que não sabe como encontra tempo para fazer tudo. Ele, simplesmente escolhe o mais importante e faz! A agenda de Marcos para este ano está lotada. Além de continuar compondo e tocando para frente a escola, ainda dará Master Classes, a convite da Funarte, no Nordeste, e continua suas pesquisas sobre a produção fonográfica no Brasil.
A pianista Lilian Barretto, além de atuar como instrumentista, também ataca como produtora cultural. Organizo projetos no CCBB, BNDES e Sala Cecília Meireles, conta ela. Lilian também é a representante brasileira da Federação Internacional Jeunesses Musicales, uma importante entidade européia que promove jovens talentos do mundo todo.
Como musicista é solista, participa dos consagrados duos Bosisio/ Barretto, e Bustani/ Barretto, criou este ano o Trio Rio, e ainda encontrou tempo para participar, em dezembro, do júri do Concurso Internacional de Duos de Piano, em Miami. Meu segredo é a organização, ensina. Assim como Flávio, Ricardo, Jaques, Marcos e Lilian, outros músicos vivem a angústia de correr contra o metrônomo. Essas histórias se repetem de geração em geração, e não passam de variações sobre o mesmo tema.
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Fonte: www.quediaehoje.net
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