quinta-feira, 4 de junho de 2009

Hoje é dia de ...

Dia Internacional da Criança Vítima de Violência 

Os psicólogos e os pediatras aceitam que até esta

 idade a criança tenha estruturado sua personalidade, por já terem passado por vivências suficientes para isso. Dizem inclusive que, do ponto da vista de personalidade e de comportamento, somos o que éramos aos seis anos. Se essa afirmação é verdadeira, como tudo indica, a medida para prevenir os comportamentos anti-sociais terão que ser tomadas nesta faixa etária. É o que chamamos em Medicina de prevenção primária: atuar fortalecendo a saúde e prevenindo a instalação dos desvios de comportamento.

Denomina-se de prevenção secundária, as medidas tomadas para controlar ou corrigir os desvios de comportamento já instalados, na tentativa de se evitar internações caso essas medidas não produzam o resultado esperado. Passa-se à prevenção terciária, onde, na maioria das vezes, existe a necessidade de internações, pelo risco que essas pessoas representam para a sociedade ou para elas próprias. O combate à impunidade é um exemplo de prevenção secundária, quando se tem por objetivo corrigir o infrator, punindo-o, para evitar que ele continue sua ação nociva contra as pessoas ou meio ambiente. Ou Terciária, quando ele é preso por representar um risco para a sociedade e necessitar de um tratamento especializado que possibilite sua recuperação e reintegração no meio social.

Obviamente a prevenção terciária exige estruturas adequadas e equipes multidisciplinares competentes, de custo elevado. Nos depósitos de presos, superlotados, imundos, os internados nada fazem, a não ser aprender novas modalidades de crimes e a pensar em forma de vingança contra os que lá os colocaram. Isso explica porque, em Brasília, 85% dos egressos da penitenciária saem e, em pouco tempo, retornam. Nunca se conseguirá diminuir o número de violentos, sejam eles ricos ou pobres, políticos, governantes, magistrados, religiosos, médicos, militares, advogados, empreiteiros, comerciantes, industriais, policiais, se não evitarmos que a semente da violência seja implantada nas pessoas, antes dos seis anos de idade.

Ledo engano achar que o combate à corrupção, ao narcotráfico, à violência policial, à impunidade, à miséria, ao racismo, denunciando os delinqüentes, construindo presídios, matando marginais, criando SOS, conselhos, tribunais e delegacias especiais, resolva ou minimize o problema. Tudo isso vem sendo tentado no país, há quase um século. E os resultados? O clima de terror cresce assustadoramente. Assaltos, seqüestros, homicídios, estupros, roubos, fazem parte do dia-a-dia. Sobressaltadas, trancadas em casa - algumas, verdadeiras fortalezas - sem poder sair à noite, a população inerme não sabe mais o que fazer. Infelizmente, os órgãos de segurança confessam abertamente sua impotência para controlar essa situação.

Entretanto, a fórmula para se implantar a semente da violência, ou seja, criar marginais, é conhecida. Trate a criança pequena da seguinte maneira: não lhe dê atenção, ignore-a, humilhe-a e a provoque-a; grite bastante; mostre sua desaprovação e descontentamento com tudo que ela fizer; encoraje-a a brigar com os irmãos, colegas e amigos; discuta e brigue, por qualquer motivo, ou sem motivo, principalmente no sentido físico, com seu parceiro conjugal na frente da criança; ameace, castigue e bata na criança; engane-a, minta-lhe; seja permissivo; ensine-a que o mundo é dos espertos, vangloriando-se junto a ela de atos que deveria se envergonhar. E, se isso não for suficiente, coloque-a em frente a televisão e dê-lhe carta branca para assistir a todos os espetáculos violentos disponíveis, e as inocentes novelas, onde a desestruturação familiar é mostrada como um ganho social, onde as safadezas, as imoralidades e os atos de atentado ao pudor, são mostrados como fatos moralmente aceitáveis.

Crescendo, a criança irá enfrentar um mundo cheio de discriminações e violências. Agora sim, se for discriminada, poderá utilizar seu "aprendizado" para conquistar riqueza ou poder. A adolescência é a fase mais perigosa, quando diversos fatores modificam profundamente o comportamento das pessoas. As que não têm a semente são idealistas; os portadores dela desafiam os familiares, as pessoas e o mundo, responsabilizando-os pelos seus problemas, e, algumas vezes, tentando resolvê-los praticando atos não socialmente aceitáveis. Por isso, são os adolescentes que mais enriquecem as páginas policiais, como autores ou como vítimas de atos violentos. Só nos resta tentar tratá-los, o que não será conseguido baixando-se a idade de inimputabilidade para dezesseis ou para doze anos.

O amor, o carinho, a compreensão, a disciplina consciente, são as armas que temos para combater a violência. A punição, às vezes indiscriminada e injusta, agrava a situação. Dentro deste raciocínio só existe uma maneira de diminuir a violência: assegurar que todas as crianças, principalmente nos seis primeiros anos de vida, recebam a proteção que lhes é assegurada pelo artigo 227 da Constituição, acrescida dos seguintes adendos: os pais só deverão ter filhos se estiverem dispostos a amá-los e a protegê-los, caso contrário, serão instruídos sobre como evitá-los; as crianças vítimas da violência no lar, considerada a forma mais comum, mais grave, é a grande responsável pela perpetuação do processo pois, o violento gera o violento, deverão ser colocadas em lares substitutos; a privação materna, por si só, é capaz de formar delinqüentes, deverá ser combatida: toda criança deverá ter uma mãe e uma família, sendo obrigação e responsabilidade do Estado: promover, facilitar e agilizar os processos de adoção, ou de colocação familiar, para que as crianças não fiquem, nem um dia, abandonadas; os hospitais deverão promover a participação dos pais no tratamento dos filhos; as creches e as escolas maternais necessitam ter pessoal habilitado, que conheçam as necessidades emocionais das crianças; o fato de gostar de crianças deverá ser levado em consideração na seleção de todo e qualquer profissional que pretenda cuidar delas.

Embora tudo isso possa parecer utópico, será, sem dúvida, muito mais fácil do que acabar com a impunidade, com o narcotráfico, com o contrabando de armas e com a violência urbana. Acho que seria mais lógico se pensássemos em maneiras de conseguir formar bons cidadãos, ao invés de só nos preocuparmos em corrigir os que estão errados.


Fonte: www.quediaehoje.net



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